segunda-feira, novembro 1

Sedução de Mundos Distantes < ballet gulbenkian

No próximo dia 3 de Novembro, o Ballet Gulbenkian estreia o 1º Programa de nova temporada, que se estende até ao dia 6, no Grande Auditório Gulbenkian, e que será repetido nos dias 12 e 13 no Grande Audiótorio do Europarque, em Santa Maria da Feira.

Tendo eu o privilégio de poder estar a ver as novas criações das coreógrafas enquanto escrevo, deixo este meu primeiro texto, como membro deste blog, sobre a minha arte de eleição: a minha dança!

Respondendo ao desejo de poder apresentar um programa no feminino, Paulo Ribeiro (Director Artístico do Ballet Gulbenkian) fez recair a sua escolha sobre a portuguesa Clara Andermatt e a inglesa Didy Veldman.
Ambas tiveram um tema comum: A Sedução de Mundos Distantes, respondendo ao tema lançado pelo Festival Internacional de Dresden, a realizar-se em Maio de 2005, onde a companhia marcará a sua presença.

Outsight, de Didy Veldman com partitura original de Philip Feeney, aborda a distância: a distância a que estamos dos outros, do desconhecido, de nós mesmos, do que desconhecemos em nós próprios; o que é preciso percorrer para atingir esses destinos sobretudo a partir do conceito de fronteira. Fronteiras no mundo, entre culturas, entre pessoas, tudo funcionando numa espécie de terra de ninguém. São porém os traços do humano que se transfiguram nesta peça marcada também pela ideia de memória, reflexão e consciência. Cada domínio do ser expreime-se numa linguagem e esta coreografia assenta também aí, na aceitação do que chega do Outro, na diferença em relação ao Outro. Formalmente reporta-nos para um mundo infantil, um mundo especial e de um imaginário pessoal onde habitam os sons de embalar das caixas de música e os novelos de lã transformados em mantas que nos aconchegam os sonhos. Fazendo lembrar os contos tradicionais ingleses com uma mescla de surrealismo da Alice no País das Maravilhas.

Clara Andermatt procura o desconhecido pela via do mistério e da surpresa que encontra no conhecido, em direcção ao que provavelmente de mais enigmático existe em tudo o que desconhecemos: a morte. O Outro é o desconhecido onde encontramos a nossa identidade, diz entre uma pausa dos ensaios e mais um café da D.Laura ( a empregada do bar dos artístas e que curiosamente é do Fundão). Esta peça dir-se-ia, por outro lado, também, uma forma de busca que utiliza a música de Camille Saint-Säens, trabalhada por Vítor Rua, e conta com o desenho de luzes de Rui Horta. Nela são utilizadas referências da história da dança que permitem o salto para um conteúdo material na convocação da ideia de lonjura.
As questões humanas e emotivas, o amor, por exemplo, bem como a abordagem do erotismo que arrasta para a morte. O Canto do Cisne utiliza como citação Le Sacré du Printemps, na sua diversidade de acentuações rítmicas, na dissonância, no uso de perfis, ângulos estranhos e alusões sensuais. Tratava-se , na versão original de Nijinsky, de regressar às origens pagãs da antiga Rússia, usando uma idealização dos rituais xamanísticos eslavos.
Clara Andermatt aborda a morte não como o final do que quer que seja, mas justamente como o que deixamos para trás quando definimos novos caminhos; não a morte como terminal, mas como o princípio de futuro que ela contém, para reinventar novos conceitos; um momento que a coreógrafa decide identificar como o canto do cisne.
Curioso é o facto que esta coreógrafa, que pertenceu a uma geração que destruíu a ideia de que a técnica é fundamental no processo de formação de um bailarino/coreógrafo, traz a cena uma interpretação dos maiores clássicos da história da Dança. Justifica-se dizendo que o presente acaba por revelar-se numa contínua constatação de que é passado, porque tudo em nós se encontra em incessante mutação, e simultaneamente em futuro, que desconhecemos, e em função do qual agimos invariavelmente buscando nova adaptação; citando Peggy Phelan: Quando pensas que encontraste a forma de amar, de observar ou de lembrar alguém, já tudo mudou.

Não existe futuro sem passado... Anna Mascolo

Apareçam, que o amigo das danças lá estará...

Obrigado Pedro pelo convite.....

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