terça-feira, abril 13

Uma suecada pascal

Mesa para quatro. Copo três para todos.
Jorra o tinto novo no copo de vidro basso e nas goelas ressequidas pelo Sol prazenteiro de Abril.
A Gardunha recusa a sombra, que tenuemente se insinua com a forma esquálida das vides podadas de fresco na latada.
Pretas, ou vermelhas. Dá o meu Ti Zé Maria. Mão certeira e sabida a dar. Marca manilha de copas e dá à direita para o meu Avô Manel, a contra luz, já a piscar o olho. Distribui em leque mais dez para o Ti João, noventa anos e pai do Ti Zé Maria.
Velhote gingão de S. Vicente da Beira, músico da banda há 75 anos. Tocava caixa. Já enterrou três mulheres e anda de soslaio posto “na cachopa” do lar, moça de 70 e tal anos, já se vê.
Ti João, enfezado e pele engelhada vai escondendo o jogo na manápula. Está feliz, vê-se no brilho malandro dos olhos e no estalido alegre que faz o tinto a escorrer-lhe pela goela. Deve ter mão cheia de copas e áses à farta. Mas, mais importante do que isso, o sol está de aquecer a alma, e o vinho também. Faz pareceria com o seu filho e aprendiz na arte da sueca.
Tem noventa anos e está vivo. Pisco os olhos contra o Sol, só me saem duques e cenas tristes. Vai um trago de vinho novo, espumoso e forte, para esquecer
O meu avô lá meteu a unha no baralhar e trocou a divina ordem da sorte. Quem se mete com o destino aleatório das cartas, mete-se com um Deus implacável.
Olho para o meu avô à procura de um sinal. Carrega as sobrancelhas e fecha o semblante, dali também nada de bom vem à mão.
– A ver não levamos uma limpa ! – roga ao deus da fortuna o bom do Manel Vitorino, rapidamente convertido ao azar do baralho.
O meu Ti Zé Maria, sorri, e numa cortesia profissional de jogador batido – tranquiliza:
–Chita não levam, mas duas ninguém vos tira.
Olho para os rostos fechados, mas com aquela luz do Sol, lampeja um ar de garotos felizes. Olho para a quadra de paus, bato-a na mesa com convicção lenta, pisco os olhos do Sol e do vinho forte e novo, e sinto-me inundado de uma estranha felicidade, de uma paz de perdedor.
Este jogo da Sueca está irremediavelmente perdido, o que sobra é um amor filial derramado num terreiro beirão e a felicidade de estar vivo, tal como o Ti João.
Na Beira Baixa a sueca é muito mais do que um jogo de cartas.

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